Psicomotricidade

Psicomotricidade e NEE

A psicomotricidade teve a sua origem em disciplinas como a neurologia, psicologia, psiquiatria, pedagogia, psicanálise, entre outras, e destaca-se pela sua visão holística da criança. Este termo parte de uma tentativa de desmistificar a ideia de separação entre corpo e espírito e estuda as relações entre o movimento e o psiquismo (Fonseca, 2010).

Hoje sabemos que há uma interrelação forte entre as funções mentais e motoras, tal como afirmava Wallon (1925), e que é a atividade psicomotora (o agarrar, o mexer, o correr, o saltar) que está na base da aprendizagem (Lièvre e Staes, 2012). Desta forma, as dimensões motoras, mentais e emocionais do indivíduo estão em constante interação e manifestação no corpo e, por isto, cada a criança é única e deve ser observada como um todo, com as suas características motoras, cognitivas e emocionais próprias e tendo em conta os seus contextos (Martins, 2001).

Assim, a terapia psicomotora valoriza esta visão global do indivíduo e caracteriza-se por uma utilização do corpo e da expressividade para atuar sobre a expressão motora inadequada ou inadaptada em indivíduos com problemáticas de incidência corporal, relacional e/ou cognitiva (APP, 2011).

No caso das NEE, uma intervenção psicomotora permite à criança desenvolver o seu equilíbrio psicocorporal e encontrar novas maneiras de agir e de se expressar, o que reduz os seus problemas psicomotores e promove a sua aprendizagem (Boscaini e Saint-Cast, 2010). Esta intervenção foca-se primeiramente no potencial de aprendizagem e bem-estar, e menos na doença ou problema (Fonseca, 2005). Através da utilização do jogo, expressão artística e relaxação, e da valorização da relação, o psicomotricista procura possibilitar a expressão da personalidade, ao invés de tentar atuar apenas nas dificuldades e sintomas (Rodrigues e Marta, 1994; Martins, 2001).

Para concluir, a terapia psicomotora utiliza o corpo e o movimento como meio para a aprendizagem, valendo-se de experiências lúdicas e significativas para promover aspetos como a expressividade de emoções e afetos, atenção, concentração, memória, controlo da impulsividade, linguagem, autoestima, coordenação e competências pessoais e sociais (APP, 2011).

 

Referências bibliográficas:

Associação Portuguesa de Psicomotricidade. (2011). Regulamento Profissional dos Psicomotricistas Portugueses.

Boscaini, F., & Saint-Cast, A. (2010). L'expérience émotionnelle dans la relation psychomotrice. Enfances & Psy, 4(49), pp. 78-88.

Fonseca, V. (2005). Desenvolvimento Psicomotor e Aprendizagem. Lisboa: Âncora Editora.

Fonseca, V. (2010). Manual de Observação Psicomotora: Significação Psiconeurológica dos Seus Fatores. Lisboa: Âncora Editora.

Lièvre, B. D., & Staes, L. (2012). La psychomotricité au service de l'enfant, de l'adolescent et de l'adult: Notions et applications pédagogiques. Bruxelles: De Boeck.

Martins, R. (2001a). Questões sobre a Identidade da Psicomotricidade- As práticas entre o Instrumental e o Relacional. In V. Fonseca, & R. Martins, Progressos em Psicomotricidade (pp. 29-40). Lisboa: Edições FMH.

Rodrigues, A. N., & Marta, F. (1994). Motricidade Terapêutica em Saúde Mental Infantil: Abordagem a uma Metodologia de Intervenção. Revista de Educação Especial e Reabilitação, 2, pp. 75-86.

Wallon, H. (1925). L'Enfant Turbulent. Paris: Librairie Félix Alcan.

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